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Ah tirem-me os sonhos arrabatadores. Todos aqueles que provam uma gota do divino néctar da imortalidade para sempre irão lutar com a sua própria vida.
A centelha que ousaram roubar aos deuses, lentamente irá consumir os seus espíritos, até que deles só restem cinzas.
Loucos e cegos, tentam controlar forças universais, mais vastas do que a sua mente consegue conçeber.
Intoxicados com os fumos do atanor, julgam-se possuidores do ouro, quando apenas alucinam riquesas. (Como será possível distinguir o que é perene, o que é verdadeiro, quando estamos confinados à mesma mente que alucina?)
A árvore da vida leva décadas a crescer, e antes de dar frutos os homems passam fome.
Se chegar a crescer sequer. Nem sempre as sementes cresçem em todos ao solos, alguns por si só são agrestes à vida. Que será feito dos solos áridos e cheios de sal?

Oh triste aspirar às estrelas! Tristes sonhos impossíveis de concretizar! Não há nada mais trágico que o cadáver de um sonho. E nada mais ledo que uma obra feita.
Mas o mundo é um cemitério de sonhos, um jazigo de aspirações e amores não correspondidos. O curioso é que no meio de todas estas campas nasçem flores e cipestres. Que se elevam alcançando os céus. Quase como se tantos cadáveres, preparassem o solo, para que algo nesse deserto árido podesse florescer. Talvez os solos agrestes não estejam assim tão perdidos.

Terra Mítica

Terra mítica lá no longe lá no além

terra perdida entre sonhos de alguém

terra de promessas terra de bejos

que se esconde por entre as brumas dos desejos

 

terra onde o sol se perde por entre as estrelas a nascente

Terra onde resplandeçe o desejo ardente

terra onde palpita o sonho pujante

terra onde nos encantam os murmúrios de levante

 

Terra do mar e da eterna verdade

Terra, serena, ponte para a eternidade

Que há no abismo entre dois seres humanos

Deveres Sagrados e desejos mundanos

É como se o meu pôr-do-sol não fosse o vácuo da despedida, mas a esperança de uma antemanhã, na qual a aurora vai pintar de orvalho a flores desidratadas dos campos. Os primeiros raios matinais vão lentamente ofuscando o pálido cintilar das estrelas, deixando para trás noite e o seu brilho misterioso e solitário.

Tenho medo dos sonhos que nunca terei. Tenho medo das paisagens que os meus olhos nunca poderão ver. Tenho medo de todas as linguas nas quais nunca serei capaz de dizer palavras de amor.  Tenho medo dos futuros que nunca virão a aconteçer, sementes que deitei em vão na terra ou sonhos que disso não passaram. tenho medo dos livros que deixei por ler. Tenho medo das ciências que nunca dominarei e dos conhecimentos que ignoro desconhecer.  Tenho medo dos abraços que não dei e das lágrimas que evitei derramar.

We are the music-makers

We are the music-makers,
And we are the dreamers of dreams,
Wandering by lone sea-breakers,
And sitting by desolate streams;
World-losers and world-forsakers,
On whom the pale moon gleams:
Yet we are the movers and shakers
Of the world for ever, it seems

With wonderful deathless ditties
We build up the world’s great cities.
And out of a fabulous story
We fashion art empire’s glory:
One man with a dream, at pleasure,
Shall go forth and conquer a crown;
And three with a new song’s measure
Can trample in empire down.

We, in the ages lying
In the buried past of the earth.
Built Nineveh with our sighing,
And Babel itself with our mirth;
And o’erthrew them with prophesying
To the old of the new world’s worth;
For each age is a dream that is dying,
Or one that is coming to birth.

Ode
by Arthur O’Shaughnessy [1844-1881]

 

evito

5 de Outubro 1987,  sigo por entre vultos. Evito encontões, choques no escuro, colisões sem sentido. Desperto e vejo um corpo nú. Perto dele muitos outros corpos despidos. Morte…sofrimento…dor. No meio do desfile fúnebre, corre um rio de um líquido vermelho espesso. Líquido esse que noutros tempos dentro deles correu. Hoje o líquido deixou o seu leito. Secou sem conheçer foz. Terrível destino este! O de correr e depois morrer…é preciso ser estoico…conheçer o segredo de viver com o sofrimento de existir. Se é que existe um segredo! Nem todos os mistérios podem ser resolúveis. É impossível resolver um puzzle de círculos. Ou perçeber quem surgiu primeiro o ovo ou g’. Podemos dizer que foi um réptil… ou que foi deus. Pero quem ouve os biologos ou os bispos de cultos do tempo de jesus cristo? E certos mistérios nem o próprio deus consegue resolver. Existir que enorme mistério…viver e morrer…sem propósito pré-definido. Sempre regidos por um impossível destino. Controlo? Que controlo poderemos ter? Este corpo nu pode escolher? Pode…foi suicídio. Os outros homens…nem por isso…mortos, um por um (cruelmente deveremos dizer!). Motivo do crime? É preciso motivos? O criminoso morreu…suicidou-se! É justo! Olho por olho…dente por dente. Que rico negócio! Muitos dentes por um de oiro…ups…perdemos todos os dentes.

(texto muito non sense escrito sem  utilizar uma única vez a letra a, que é a letra mais comum da língua portuguesa. Neste post pertendo homenagear Georges Persec, escritor francês que escreveu uma novela de 300 páginas, de boa qualidade (juro!), sem utilizar uma única vez a letra e)

Engolirei os meus gritos. Para que outros possam também gritar.

Abafarei as minhas frases. Parar aprender a escutar.

Calarei a minha boca. Para ouvir o som do silêncio.

Pousarei a minha caneta. Porque as minhas palavras não têm qualquer valor.

Fecharei as minhas janelas. Para que o frio nunca mais entre em minha casa.

Taparei os meus olhos. Para não ver coisas que me revoltem.

Ficarei então fabulosamente apática e talvez assim consiga deambular à deriva pelo mundo.

 

 

love fool – The cardigans

IST(o)

No princípio o sonho não estava separado da realidade. Como tal o acto de desejar e a manifestação do desejo eram quase indistintos. O céu era palpável e bastava erguer os braços em direcção ao infinito para alcançar a o sol. Lembro-me perfeitamente do tempo, em que eu escorregava pelo arco-íris e saltitava por entre as núvens. Lembro-me do tempo em que as estrelas me sussuravam aos ouvidos histórias de encantar e a lua me embalava até eu adormeçer. Nesse tempo as coisas ainda não tinham nomes, apenas existiam. Um cão podia ser chamado de ão ão, ou até de gato, mas o nome nada importava, porque independentemente do nome, o cão continuava a fazer parte do meu mundo. No princípio as minhas janelas ainda estavam limpas.
Com o tempo o sonho foi-se afastando da realidade, as coisas deixaram de ter formas indistintas e eternamente mutáveis e passaram a ter nomes e significados.
Fui introduzida aos conceitos de distância, realidade, imaginação, de possível e impossível.
Então as minhas janelas começaram a ficar embaciadas, e o céu passou a ser só o céu, as estrelas deixaram de me contar histórias de embalar, estava demasiado longe, e as nuvéns apenas deitavam para a terra chuva, que às vezes me molhava.
Depois a certa altura, alguém achou que os nomes não eram suficientes (essa pessoa devia ter as janelas muito embaciadas). E começou a atribuir números às coisas e com os números começaram a surgir regras, neste jogo eterno que é o mundo. E subitamente descobri que não podia escorregar pelo arco-íris e que por muito que corra, não posso andar mais depressa que a luz. Derrepente o meu mundo era limitado e lógico. E fenómenos, aparentemente inexplicáveis, eram apenas uma combinação ligeiramente estranha destas leis que governavam o meu mundo. Os meus olhos começaram a ficar terrívelmente embaciados. E de espectadora do jogo que é o mundo passei a ser uma jogadora. Deram-me um cartão e tudo, para ter acesso ao tabeleiro. E de tanto jogar, fiquei viciada, e como um jogador de xadrês passei a ver o mundo inteiro consoante as regras. Agora até nos sonhos tento dar nomes às coisas e dar números aos nomes. E fico espantada, quando os sonhos não se portam consoante as regras, quando a lua tem um tromba de elefante, e quando eu toco com a cabeça no céu.

fecho os olhos e respiro. Inspiro o futuro sonhado, pelas minhas narinas, expiro o passado sombrio pela minha boca. Nas pausas entre a inspiração e a expiração, rendo-me ao negrume que os meus olhos vislumbram, o momento presente, sempre o momento presente, esse instante que dura tão pouco. Entrego-me receosa à minha própria escuridão. Mas entre a inspiração e a expiração a minha escuridão não é aterrorisadora, a minha escuridão não tem fantasmas. O escuro vislumbrado pelos meus olhos, é quente e tranquilizador, como se estivesse de volta ao maternal ventre. Onde toda eu, sou um mundo contido em mim, e eu sou a medida de todas a minhas coisas.

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